Ponto de vista da Claire
Eu examinei meu reflexo no espelho de corpo inteiro com uma intensidade que beirava a obsessão. Por baixo do vestido vermelho‑escarlate, a lingerie de renda preta abraçava cada curva — um segredo feito para os olhos de um único homem. O vestido em si era pura tentação, a seda acariciando minha pele enquanto alças delicadas moldavam minhas clavículas antes de mergulhar em um decote feito para deixá‑lo louco. Passei uma hora aperfeiçoando cada detalhe: o cabelo em ondas brilhantes, os lábios contornados em um vermelho profundo, a pulseira de ouro que ele me deu no último Natal cintilando no meu pulso.
Nosso aniversário de quatro anos.
Quatro anos de espera paciente. Quatro anos de fé absoluta.
A voz da minha mãe sussurrou pela minha memória como uma oração: "O amor verdadeiro espera, querida. Nunca entregue seu coração até ter absoluta certeza." Eu vivi por essas palavras com a devoção de uma santa, esperando que Ethan estivesse pronto — para a carreira dele, seus sonhos, nosso futuro. "Quando eu puder te dar tudo que você merece", ele sempre dizia, "aí você vai receber seu anel."
Hoje à noite era para ser essa noite.
Meu pulso tremulava como asas de beija‑flor enquanto eu pegava as rosas vermelho‑sangue amarradas com fita branca e levantava o bolo personalizado da caixa. "Forever Starts Tonight" estava escrito no fondant impecável em um elegante dourado.
A subida no elevador até a cobertura se estendeu como uma eternidade, cada andar me levando mais perto do que eu achava que seria o momento mais importante da minha vida.
Usei minha chave e entrei no que deveria ter sido o nosso futuro.
Em vez disso, entrei direto no inferno.
Os sons me atingiram primeiro. Gemidos crus, animalescos, que fizeram meu estômago se revirar. Então eu os vi: Emma, minha meia‑irmã, arqueada de quatro sobre o sofá dele, as costas tensionadas enquanto Ethan entrava nela com uma força brutal e ritmada.
"Será que a minha meia‑irmã santinha algum dia te fez sentir assim tão bem?"
A mão de Ethan apertava o peito dela com rudeza, os olhos vidrados de puro desejo. "Aquela puritana? Nem ficava molhada, mesmo se tentasse. Eu estava morrendo de tédio."
Uma raiva branca e incandescente explodiu pelas minhas veias, incinerando cada gota de amor e esperança que eu já senti.
Quatro anos. Quatro anos da minha vida. E Ethan sabia, intimamente, o quanto eu desprezava Emma. A mãe dela foi a destruidora de lares que despedaçou minha família, que roubou meu pai. E agora, Emma estava desmontando o meu futuro também, peça por peça.
O ar saiu dos meus pulmões num golpe violento. Meu coração não só quebrou; ele se fragmentou em um milhão de pedacinhos irreparáveis. O bolo escorregou dos meus dedos sem força, explodindo no piso de madeira em uma chuva de fondant branco e sonhos estilhaçados.
"Ai meu Deus." A risadinha ofegante de Emma era puro veneno enquanto ela olhava por cima do ombro na minha direção. "Bom, que situação constrangedora."
Ethan se virou, o rosto passando por choque, culpa e algo que parecia quase alívio. "Claire, eu posso explicar—"
"Explicar o quê?" As palavras arranharam minha garganta como vidro quebrado. "Há quanto tempo?"
Emma pegou preguiçosamente uma almofada, completamente sem vergonha. "Tempo suficiente pra eu saber o que estou fazendo." Os olhos dela passaram por mim com diversão cruel. "Mas tenho que admitir, esse vestido tá maravilhoso em você. Pena que foi desperdiçado."
"Emma, não—" Ethan começou, mas ela o ignorou com um gesto.
"Ah, por favor, somos todos adultos aqui." Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha com sedução ensaiada. "Esse seu teatrinho de Virgem Maria já tava cansando, querida. Homens têm necessidades."
O chão pareceu inclinar. Quatro anos de "eu respeito seus limites" e "quando você estiver pronta" e "eu amo como você é pura". Quatro anos acreditando que eu era valorizada, cuidada, alguém que valia a espera.
"Você disse que também queria esperar", sussurrei.
Ethan teve a decência de parecer envergonhado por exatos três segundos. "Eu achei que queria. Mas Claire, a gente não é mais adolescente. Esse negócio de se guardar… não é realista."
"Não." A palavra saiu como um estalo de chicote. "Não ouse dizer que a culpa é minha."
A risada de Emma era como vidro sendo esmagado. "Querida, não é exatamente culpa sua. É só que… é cansativo. Você sabe o quanto é difícil pra um homem fingir que tá satisfeito com mãos dadas e beijinho de boa noite? Ele tava morrendo por dentro."
Algo primal e violento explodiu dentro do meu peito.
A garrafa de vinho — Bordeaux, a favorita dele, que eu estava guardando pra hoje — estava nas minhas mãos antes que meu cérebro entendesse. Ela acertou o ombro dele numa explosão satisfatória de vidro e líquido cor de vinho."Jesus Cristo, Claire!"Mas eu já estava pegando o que restava do bolo, meus movimentos alimentados por uma raiva tão pura que parecia que eu estava voando
O grito da Emma quando chocolate e creme acertaram seu rosto foi o som mais bonito que eu já tinha ouvido
"Seu psicopata!" ela gritou, arranhando a cobertura dos olhos
"Quatro anos", eu disse baixinho, minha voz firme apesar do terremoto no meu peito. "Quatro anos te amando. Te apoiando. Construindo um futuro com você."
"Claire, por favor, deixa eu explicar—" Ethan deu um passo na minha direção, vinho pingando do cabelo
"Fica longe de mim." Eu recuei em direção à porta, meus saltos de grife estalando no vidro quebrado. "Vocês dois."
"Já vai tarde", rosnou Emma, ainda limpando bolo da bochecha. "Talvez agora ele possa ficar com uma mulher de verdade em vez de brincar de casinha com uma criança."
Eu me virei para a porta, minhas mãos ainda tremendo, mas minha coluna rígida. "Sabe de uma coisa?" eu disse, minha voz perigosamente baixa. "Vocês combinam perfeitamente. Um traidor e uma destruidora de lares. Que poético."
Minha mente repetiu noites sem fim: as horas que passei ajudando Ethan a aperfeiçoar o currículo, as refeições que pulei para cobrir o aluguel dele quando perdeu o emprego, o jeito suave como ele costumava afastar meu cabelo da orelha e sussurrar: "Você é o meu futuro."
Tudo mentira. Cada palavra
A porta bateu atrás de mim com a mesma decisão de uma tampa de caixão.
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O primeiro bar que encontrei era exatamente o que eu precisava—escuro, anônimo e servindo doses duplas sem julgar. Eu nunca fui muito de beber, mas hoje parecia o momento perfeito para começar
"Noite difícil?" O barman tinha olhos gentis e o rosto curtido de quem já ouviu cada história triste duas vezes
"Vida difícil", murmurei, virando meu segundo uísque como se fosse remédio
Foi quando eu o notei
Ele estava sozinho na outra ponta do bar, uma ilha de traços marcantes e um poder silencioso, inegável. Seu cabelo loiro captava o brilho âmbar das luzes, destacando um maxilar que parecia esculpido em mármore. Seus olhos, da cor de um céu de inverno, estavam fixos em nada específico enquanto ele girava lentamente o copo na mão, perdido em pensamentos. Ele não observava ninguém de forma explícita, mas sua presença era magnética
Perfeito
O álcool me deixou ousada—ou talvez só tivesse queimado minha capacidade de me importar com as consequências. Eu deslizei do banco e caminhei até ele, meu vestido vermelho ondulando nas minhas coxas como fogo líquido
"Esse lugar está ocupado?"
Ele levantou os olhos quando me aproximei, e por um instante fugaz, eu esqueci como respirar
"Depende." A voz dele era uísque e fumaça, refinada mas com um toque áspero. "Você está planejando jogar alguma coisa em mim?"
Apesar de tudo, eu ri. "Só se você me der motivo."
"Justo." Ele indicou o banco vazio com dedos longos e elegantes. "Noite ruim?"
"A pior de todas." Fiz sinal para o barman trazer outra bebida. "Meu namorado de quatro anos aparentemente está transando com a minha meia-irmã. No nosso aniversário."
"Problema dele", ele disse simplesmente. "Qualquer homem burro o bastante pra trair uma lealdade dessas não merece o que está jogando fora."
A certeza na voz dele deixou minha garganta apertada. "Qual é o seu nome?"
"Lucius." Ele estudou meu rosto como se estivesse memorizando. "E você?"
"Claire. Claire Morrison."
"Bem, Claire Morrison", ele disse, erguendo o copo num brinde sutil, "a novos começos."Bebemos em um silêncio confortável, e me peguei observando seu perfil na luz fraca. Havia algo quase etéreo nele — perfeito demais, imóvel demais, como uma estátua renascentista que tivesse ganhado vida.
"Me leva pra sua casa", falei de repente, as palavras escapando antes que eu pudesse impedir.
A mão dele parou sobre o copo. "Você tá bêbada."
"Não tanto assim. Eu sei exatamente o que tô pedindo."
"Será mesmo?" A voz dele ficou mais baixa, quase perigosa agora. "Porque eu não sou o tipo de homem que você leva pra casa pra tentar se sentir melhor por causa de um ex-namorado que te traiu."
"Ótimo", respondi firme. "Eu não quero me sentir melhor. Eu quero esquecer tudo."
Ele terminou a bebida de um gole só e se levantou, puxando a carteira do bolso.
"Meu carro tá lá fora."
O ar da noite estava gelado contra minha pele quente enquanto ele me guiava até uma Mercedes preta e elegante, a mão dele quente na minha lombar. Mas quando paramos sob um poste de luz, eu vi os olhos dele de novo e congelei.
A luz do poste bateu nos olhos dele.
Eles brilhavam.
Não era reflexo, não era truque da bebida — era um brilho dourado, suave, pulsando de dentro.
Por um instante, o mundo ficou imóvel.
"O que você é?" sussurrei.
Lucius sorriu de leve, a voz baixa contra a escuridão. "Você vai descobrir logo, Claire."
