Uma cidade.
Em um prédio antigo, pouco antes das seis da manhã, batidas fortes e xingamentos estouraram na porta da unidade oeste do oitavo andar. Só o barulho já foi o bastante para encher de lágrimas os olhos da pequena Lily Chambers, de dois anos e meio, assustada.
Ela esticou sua mãozinha gordinha para cutucar a mãe, que estava completamente imóvel, o corpo pegando fogo de febre.
"Mamãe! Tem alguém na porta!"
"A porta tá barulhenta!"
A vozinha suave de Lily tremia, quase chorando.
Ela empurrou a mãe mais algumas vezes, mas continuou sem resposta. Então pegou sua mamadeira pela metade e a encostou com cuidado nos lábios da mãe.
"Bebe um pouquinho, mamãe!"
"O neném vai espantar o homem mau!"
Ela murmurou enquanto descia da cama, movendo-se devagar, cada passo cheio de cautela.
Segurando uma pistola de brinquedo de plástico para ganhar coragem, Lily foi arrastando os pezinhos até a porta, morrendo de medo, mas tentando ser corajosa.
"Vai embora!"
"A mamãe e o neném… não tão em casa!"
Apertando o brinquedo com força, ela tentou soar brava, torcendo para que quem estivesse lá fora fosse embora.
Mas então começou o som agudo de alguém mexendo na fechadura.
Antes que Lily pudesse entender o que estava acontecendo, a porta da frente se escancarou! Um homem de meia-idade entrou se achando dono do lugar, o rosto cheio de ameaça.
"Hein, sua pirralha! Não ouviu seu tio batendo?!"
"É tão inútil quanto aquela mãe vagabunda! Nem uma porta sabe abrir!"
"Onde ela tá?! Para de se fingir de morta e aparece com o dinheiro!"
"Tenho um investimento pra fazer — preciso de cinco milhões, e ela TEM que me dar!"
Aquele homem era Jack Chandler, o tio de Lily. Seus olhos se fixaram nela, caída no chão depois de um chute, cheios de puro desprezo.
Ela bateu a cabeça no chão, e um galo já começava a inchar na testa.
Segurando a cabeça, Lily choramingou, a vozinha trêmula de tanto chorar. "Não tem dinheiro… de verdade não tem…"
"A mamãe tá doente… o neném não tem dinheiro…"
Sua carinha redonda estava toda molhada de lágrimas enquanto ela tentava ao máximo explicar por que não podia ajudar.
A mãe de Lily, Bertha Chandler, fora uma atriz de terceira linha — mal conseguia sobreviver no meio artístico.
Era lindíssima, mas nunca cedeu às propostas sujas da indústria. Somado ao seu histórico familiar complicado, acabou presa na base da hierarquia.
Três anos atrás, ela foi drogada por pessoas que achava serem amigas durante um encontro em um hotel. Desesperada, fugiu do local e, por acidente, entrou no quarto de um desconhecido. O homem estava meio desacordado naquela noite.
Depois de passar a noite com ele, Bertha Chandler escapou logo na manhã seguinte.
Dois meses depois, descobriu que estava grávida de Lily Chambers.
Ela investigou às escondidas o cara com quem tinha dormido
No fim, ele não era qualquer um — era poderoso, solteiro, absurdamente bonito, mais atraente que a maioria das celebridades e, pelo que diziam, não era do tipo que sai por aí se divertindo com qualquer pessoa
Diziam que ele não gostava nem de homens nem de mulheres — frio como um bloco de gelo recém‑saído do Ártico
Bertha tinha crescido como adotada, e sua família adotiva? Tratava‑a como se fosse de fora
O que ela mais desejava era um vínculo de sangue de verdade
Então decidiu ter o bebê
Não porque quisesse se agarrar àquele homem
Ela só queria criar seu próprio filho
Tirando o pingente de jade que ele tinha deixado para trás de forma desajeitada naquela noite, Bertha nunca pegou nada dele
Tentou devolver, mas nunca teve a chance de vê‑lo de novo
Agora, deitada na cama, doente demais para se mexer, Bertha só conseguia ouvir a confusão lá fora
Na porta, a pequena Lily viu seu tio Jack Chandler se aproximando do quarto e correu para ele, agarrando‑se à sua perna
"Não machuca a mamãe!"
"Vai embora, tio!"
Lily levantou os bracinhos para barrar a passagem, e isso fez Jack Chandler perder completamente a cabeça
Ele a agarrou com força e avançou direto para a sacada
"Você é um peso morto! Desde que sua mãe teve você, ficou mais mesquinha comigo do que nunca!"
"E agora vocês duas acham que mudar de casa vai me livrar de vocês? Pois eu digo que vou achar vocês onde quer que se escondam!"
Ele continuava berrando enquanto apertava ainda mais a menina. Num movimento brusco, escancarou a janela e a deixou pendurada do lado de fora
Oitavo andar
Era apavorante. Para uma garotinha como Lily, um verdadeiro pesadelo
Seu corpinho rechonchudo tremia de medo, e ela soltou um grito estridente
"Mamãe!"
"O bebê vai cair! O bebê tá com medo!"
"Cala a boca! Pirralha inútil!"
Jack gritou com ela e, em seguida, virou‑se para esbravejar com Bertha Chandler, que estava escondida lá dentro:
"Bertha, para de fingir! Acha que bancar a doente vai me enganar?"
"Entrega o dinheiro ou juro que jogo ela daqui agora!"
"Você quer que ela viva ou não?!"
Jack sempre foi encrenca
Tinha se afundado no vício do jogo recentemente, e a visita de hoje não tinha nada a ver com investimento nenhum — ele só queria mais dinheiro para apostar.
"Tio Jack! Por favor, me salva!" Lily chorou, sua vozinha trêmula.
O corpinho de Lily balançava para fora da janela, indo de um lado para o outro. Suas bochechas estavam manchadas de lágrimas e ranho.
Jack Chandler já estava completamente irritado com o choro dela. Justo quando ia xingar de novo, seus olhos pegaram o brilho do pingente de jade verde pendurado no pescoço da menina — ele tinha escorregado para fora enquanto ela se debatia.
Aquela peça reluzente fez seus olhos brilharem.
"Ha! Sabia que sua mãe tava escondendo dinheiro! Isso é jade de verdade, né? Passa pra cá!"
Jack esticou a mão, tentando arrancar o pingente.
Mas Lily, por instinto, segurou-o com força, seu rostinho rechonchudo cheio de resistência.
"Não! É meu!"
"Isso é meu!"
Tentando proteger seu jade, ela chutou e se debateu ainda mais.
Estava tão focada em protegê-lo que esqueceu completamente — ela ainda estava pendurada pra fora da janela do oitavo andar!
Ninguém tinha puxado ela de volta!
Uma criança irritada indo com tudo? Nem adultos aguentam sempre!
O braço de Jack já doía de segurá-la e, com ela se mexendo sem parar, seu rosto ficou vermelho de raiva.
"Para de se mexer, caramba!"
Ele rugiu enquanto tentava puxá-la de volta.
Mas bem nesse momento, seu braço cedeu de exaustão.
"Ah, merda—"
Jack só conseguiu olhar, horrorizado, enquanto Lily escorregava de suas mãos e despencava.
Suas pernas fraquejaram e ele caiu no chão, paralisado de choque.
"Ela tá ferrada!" Jack Chandler estava tão apavorado que nem conseguiu olhar pela janela. Cair do oitavo andar? Nem um adulto sobreviveria — quem dirá uma criança ainda de fralda!
Percebendo a encrenca que tinha causado, Jack desabou ali mesmo, o corpo rígido e a respiração presa na garganta.
Enquanto isso, a pequena Lily Chambers, arremessada da janela como um boneco de pano, despencava rápido. O vento deixava suas bochechas gordinhas dormentes enquanto ela caía.
Meio consciente, completamente apavorada, a mente da pequena Lily estava congelada de medo. Ela nem percebeu que o pingente de jade em seu pescoço começava a esquentar.
Com um "tum" forte, ela atingiu o chão. Seus bracinhos e perninhas ficaram esparramados, e sangue começou a escorrer de seu corpinho machucado.
O sangue penetrou no jade.
Num piscar de olhos, o pingente pareceu despertar, brilhando de leve como se estivesse prendendo a respiração esse tempo todo, e conseguiu proteger o coração dela.
Segundos depois da queda, um carro de luxo freou bruscamente, quase atropelando a menina caída no meio da rua.
"Chefe! Tem uma criança na estrada!" A voz do motorista tremia enquanto ele encarava o corpinho imóvel de Lily. "Ela parece muito machucada!"
Edward Grant, sentado no banco de trás, estreitou os olhos — e na mesma hora seu rosto ficou sombrio.
Henry Grant, o único filho do Sr. Edward Grant, estava inconsciente em um hospital particular, por um fio.
Nenhum médico tinha uma solução. A única pessoa que ousou dizer algo foi um velho adivinho ligado à família Grant. Ele disse ao Sr. Edward que Henry tinha uma filha, e uma filha de muita sorte. Enquanto ela ficasse por perto, ainda havia esperança.
Mas no segundo em que ouviu aquilo, Edward quase explodiu de raiva
Seu filho vivia como um monge — sem namorada, sem interesse em ninguém, ponto final. Então de onde, exatamente, essa filha deveria ter surgido
Isso não significava que ele não tinha a menor chance de sobreviver
O rosto de Edward escureceu. Ele disse friamente ao motorista: "Leve essa garota pro hospital agora. Não deixe ela morrer no caminho."
Ele não suportava mais nem ouvir a palavra “morta”
"Entendido!", respondeu o motorista
Ele saiu do carro sem hesitar e pegou com cuidado Lily Chambers, coberta de sangue
Como veterano aposentado, ele conhecia bem primeiros socorros. Cada movimento era cuidadoso, com medo de piorar a situação
"Senhor, posso colocar ela ao seu lado?", perguntou ele, já quase entrando no carro
"Pode," Edward respondeu sem olhar
Mas no instante em que disse isso, um rápido olhar para o rosto de Lily fez seus olhos congelarem
Quando conseguiu enxergar direito, o Sr. Grant travou no lugar, completamente atônito
"Essa garota… ela é a cara do Henry quando era pequeno!"
Na verdade, seus traços eram até mais delicados do que os de Henry naquela época
Mas aquele rostinho quieto, adormecido — ela era praticamente uma miniatura dele
Ainda tentando processar o choque, os olhos do Sr. Grant caíram sobre o pingente de jade no pescoço de Lily
Sua mão tremeu quando ele estendeu os dedos para tocá-lo
E, claro—
"Esse é o amuleto de jade do Henry! O mesmo que ele usa desde bebê!"
Ele encarou o pingente, depois o rosto pálido e quase sem vida de Lily — sua mente completamente em branco
"Yen! Pisa fundo!"
"Leva a gente pro hospital! Agora!"
